Insônia, sono fragmentado e recuperação: o que pode acontecer durante o tratamento?
O sono nem sempre melhora imediatamente após a interrupção do consumo de álcool ou de outras substâncias.
Durante a abstinência e as primeiras etapas da recuperação, algumas pessoas podem ter dificuldade para adormecer, acordar várias vezes durante a noite, apresentar sonhos intensos ou sentir sono excessivo ao longo do dia.
Essas alterações podem gerar preocupação, mas não significam necessariamente que o tratamento esteja dando errado. O organismo pode precisar de tempo e acompanhamento para reorganizar os ciclos de sono.
Por que o sono pode mudar?
Diferentes substâncias interferem no estado de alerta, no funcionamento do sistema nervoso e na organização natural entre sono e vigília.
Com o uso frequente, o organismo passa por adaptações. Quando a substância é reduzida ou interrompida, essas mudanças não desaparecem imediatamente.
O álcool, por exemplo, pode provocar sonolência no início da noite, mas prejudicar a continuidade e a qualidade do sono. A pessoa pode dormir rapidamente e, ainda assim, acordar diversas vezes ou levantar cansada.
Durante a abstinência, também podem aparecer ansiedade, irritabilidade, tremores, inquietação e alterações de humor que dificultam o descanso.
Quais alterações podem ocorrer?
Os problemas relatados durante a recuperação variam conforme a substância utilizada, o padrão de consumo, o tempo de uso e as condições individuais.
Entre as alterações mais comuns estão:
- Dificuldade para adormecer;
- Despertares frequentes;
- Sono leve ou fragmentado;
- Pesadelos ou sonhos intensos;
- Acordar antes do horário desejado;
- Cansaço ao despertar;
- Sonolência durante o dia;
- Horários de sono desorganizados;
- Sensação de não ter descansado;
- Inversão entre o dia e a noite.
Algumas pessoas percebem melhora em poucos dias. Para outras, a regularização pode levar semanas ou mais tempo. Por isso, comparações com a experiência de outros pacientes nem sempre ajudam.
Como noites ruins afetam a recuperação?
Dormir mal não provoca apenas cansaço.
A falta de descanso pode aumentar a irritabilidade, a ansiedade e a dificuldade de concentração. Também pode prejudicar a memória, a tomada de decisões e a participação nas atividades terapêuticas.
Quando o paciente associa o uso da substância ao relaxamento ou ao sono, uma noite difícil também pode aumentar pensamentos como “preciso usar para conseguir dormir”.
Esse desconforto precisa ser comunicado à equipe. Esconder a insônia ou tentar controlá-la por conta própria pode dificultar o tratamento e aumentar outros riscos.
Por que a automedicação deve ser evitada?
Diante de várias noites ruins, é comum que a pessoa pense em utilizar calmantes, medicamentos para dormir ou produtos indicados por conhecidos.
Essa prática pode ser perigosa.
Alguns medicamentos apresentam risco de dependência, interações, sonolência excessiva ou uso inadequado. Além disso, um remédio que parece ter funcionado para outra pessoa pode não ser indicado para aquele paciente.
Medicamentos para ansiedade ou sono só devem ser utilizados após avaliação e prescrição profissional. Também não se deve aumentar doses, misturar substâncias ou interromper uma medicação prescrita sem orientação.
O que pode ajudar a reorganizar o sono?
Algumas medidas comportamentais podem contribuir para a criação de uma rotina mais estável. Elas precisam ser adaptadas às condições clínicas e ao plano de tratamento de cada pessoa.
Entre as medidas que podem ajudar estão:
- Manter horários regulares para dormir e acordar;
- Procurar exposição à luz natural durante a manhã;
- Evitar cochilos longos ou muito próximos da noite;
- Reduzir cafeína, energéticos e nicotina no período noturno;
- Diminuir o uso de telas antes de dormir;
- Manter o quarto silencioso, escuro e confortável;
- Praticar atividades físicas conforme orientação;
- Participar das atividades terapêuticas durante o dia;
- Evitar refeições muito pesadas antes de deitar;
- Comunicar à equipe qualquer mudança importante.
A expectativa de “precisar dormir imediatamente” também pode aumentar a tensão. O objetivo inicial deve ser reconstruir uma rotina segura e consistente, mesmo que a melhora aconteça gradualmente.
Quando é necessário procurar avaliação?
A insônia persistente precisa ser discutida com a equipe responsável pelo tratamento, principalmente quando causa prejuízos importantes durante o dia.
Também é importante avaliar se existem outras condições relacionadas, como ansiedade, depressão, dor, alterações respiratórias durante o sono ou efeitos de medicamentos.
Durante a abstinência, procure atendimento de urgência caso a dificuldade para dormir esteja acompanhada de:
- Confusão mental;
- Desorientação;
- Convulsões;
- Alucinações;
- Agitação intensa;
- Febre;
- Alterações importantes dos batimentos cardíacos;
- Perda de consciência;
- Comportamento que coloque alguém em risco.
Diante desses sinais, acione o SAMU pelo número 192 ou procure imediatamente uma UPA ou pronto-socorro.
O sono melhora com o tempo?
Muitas pessoas apresentam melhora progressiva à medida que o organismo se adapta, a rotina se torna mais estável e outros sintomas são tratados.
Entretanto, a recuperação não acontece no mesmo ritmo para todos. Algumas alterações podem persistir e precisar de investigação específica.
A continuidade do acompanhamento permite identificar o que faz parte do processo de adaptação e o que precisa de uma intervenção adicional.
Cuidar do sono também faz parte do tratamento
Sono, saúde mental e recuperação estão conectados.
A dificuldade para dormir não deve ser tratada como falta de esforço ou de compromisso. Ela precisa ser observada, comunicada e acompanhada de maneira responsável.
Com rotina, avaliação profissional e participação ativa no tratamento, é possível criar condições para que o organismo recupere gradualmente um padrão de descanso mais saudável.
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Tatuí/SP
Este conteúdo possui finalidade informativa e não substitui avaliação médica. Em situações de urgência, acione o SAMU pelo número 192.
FONTES INSTITUCIONAIS SUGERIDAS
SAMHSA — Treating Sleep Problems of People in Recovery From Substance Use Disorders:
https://library.samhsa.gov/sites/default/files/sma14-4859.pdf
NIAAA — Alcohol Use Disorder and Common Co-occurring Conditions:
https://www.niaaa.nih.gov/health-professionals-communities/core-resource-on-alcohol/mental-health-issues-alcohol-use-disorder-and-common-co-occurring-conditions
NIAAA — Support Recovery: It’s a Marathon, Not a Sprint:
https://www.niaaa.nih.gov/health-professionals-communities/core-resource-on-alcohol/support-recovery-its-marathon-not-sprint
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